segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

As pessoas

Há momentos em que a felicidade toma conta de mim. São os momentos em que eu percebo que minha vida está sendo mudada. Em que eu percebo um avanço, em que eu vejo o crescimento e presencio acontecimentos que vão ficar pra sempre na minha memória. Exemplo disto aconteceu este final de semana, em São Paulo.
Encontrar com pessoas de diversos lugares do país, para conversar e tomar uma decisão que impactará muitas vidas por si só já seria algo interessante. Mas o que mais me impressiona nesta vida são as pessoas.
Eu nunca fui nem serei uma pessoa brilhante. Por pessoa brilhante, eu considero pessoas extremamente boas em algo que fazem, que se tornam únicas no trabalho que realizam. É como se tornassem a vida uma obra de arte, e concedessem sua assinatura a cada momento em que vivem. Tive a oportunidade de conviver com os mais diferentes brilhantismos: o cara que inspira, o visionário, o manipulador, o gerente. E esta situação sempre me intrigou, porque não sabia no que me daria bem na vida.
Num fim de semana, eu vi muitas pessoas brilhantes. Muitas pessoas que admiro, que respeito, e que me inspiram a sempre crescer, para que um dia eu atinja um número de pessoas semelhante ao que eles fazem comigo. São pessoas como as que vi me encarando de cima de um palco, pondo sua cara a tapa por um dos cargos mais sonhados que eu conheço. São pessoas ali sentadas que discutem e mostram um entendimento fora do comum sobre questões fundamentais do mundo, que dão idéias, que querem melhorar o que está fora do lugar.
E esta sempre foi minha discussão: tem muita gente boa no mundo. Onde eu vou me encaixar? Tem lugar pra mim?
Aprendi uma coisa por isso: eu podia não ser o mais talentoso, o mais gabaritado, o primeiro da turma, mas ninguém ia me vencer em matéria de esforço. Por isso, a minha vida toda eu busco aprender, absorver ao máximo. E sempre quando eu acho que estou muito bem, me vem um final de semana com aquelas velhas pessoas brilhantes e eu vejo o quanto eu ainda posso melhorar!
Parece uma ilusão viver assim, parece romântico, mas a verdade é que é uma maneira de se manter sempre com a consciência limpa de que se fez o melhor. E isso é uma barreira contra problemas. Porque eles acontecerão, independente do meu esforço; o que muda é a percepção sobre isto; se eles vão ser difíceis ou fáceis, depende exclusivamente da minha vontade. Afinal, quem torna os dias especiais são as próprias pessoas.
Eu escrevo este texto não como um simples desabafo, mas sim como um agradecimento. Um agradecimento a cada uma das pessoas que inspira outras. A cada uma das pessoas que mudou a minha vida. A cada uma das pessoas que ambiciona que o mundo melhora. E hoje, quando eu volto aqui para o meu mundo, esta outra perspectiva me faz crescer, me faz não ter medo do futuro. E é por isso que mantenho este blog e busco escrever algumas palavras sobre o que espero ter na minha vida. E assim eu fecho um final de semana inesquecível, mas principalmente, que me faz renovar a fé nas pessoas!
"Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criamos." Albert Einstein

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Coexistir

Conexões lógicas são uma arte exímia. Quando bem feitas, conseguem criar uma rede infinita de sabedoria e de genialidade que explica o inexplicável e explora os detalhes que ninguém consegue ver. Exemplo disso é Sherlock Holmes. Não estou falando isso só porque vi o filme, mas sim porque acompanhei toda a obra e sempre me fascinou a facilidade com que detalhes banais por vezes se tornavam essenciais para a captura ou não de um criminoso.

A lógica nos dá a salvação dos pensadores, daqueles que buscam compreender todos os fatos racionalmente. E é um narcotizante para a nossa mente. O único problema é que a vida em sociedade não existe somente através da lógica, do pensamento, mas sim das interações. E aí começam os problemas e termina o chão.

Inteligência sentimental, interação social e competências em comunidade são o que tornam a teoria distante da prática. O mundo da lógica é o mundo digital, o mundo virtual, o mundo dos avatares. É quando nós controlamos os nossos sentimentos para controlar um corpo estranho, muitas vezes a nós mesmos.

Não é quem você é, mas o que você é. Por muitas vezes, na vida somos obrigados a assumir o papel do avatar. Hoje, você precisa reformular seu orkut para as empresas. Você precisa verificar suas mensagens antes de mandar um email, revisar cada texto que publica. Porque você nessa realidade é um avatar. Você se imagina em terceira pessoa, se vê como os outros te veriam.

É errado? Não sou eu quem vou questionar. Diferentes valores da sociedade tornam a interação de local para local diferente. Por exemplo, para nós não é comum um prostíbulo no meio da cidade. Em Amsterdã, é permitido. Será que o seu avatar tem a mesma cor desta outra pessoa? Será que os dois falam a mesma língua? A lógica é desconexa quando tratamos os diferentes hábitos de cada ambiente. Aí você me pergunta: Por que você está escrevendo isto?

Bom, no fim das contas, todos nós somos tão fragéis como o protagonista do filme que controla seu avatar. No final das contas, podemos ser fortes, grandes caçadores no mundo virtual, mas as fraquezas, as incertezas e as dificuldades nos trazem de volta ao mundo real de cadeira de rodas. No fim das contas, o papel que representamos não é o que somos. E por isso, somos levados todos os dias a desafiar a lógica. A quebrar as correntes, mudar paradigmas. Tudo isso acontece porque podemos.

Ser um Sherlock Holmes, um lógico, visionário, deve ser fantástico. Mas ele não deixa de ser um avatar, porque não mostra suas fraquezas. É vencedor aquele que tem a sua alma o mais próximo possível do seu corpo. Isso é real. Tentar vencer, crescer a cada derrota, e ter orgulho de suas cicatrizes de guerra. Porque a sua alma sempre vai ser mais importante que o seu avatar. E quem tem essência não se curva ao seu avatar. Simplesmente coexiste.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

E eu to voltando pra casa!

Férias na praia, reveillon em copacabana, e muita leitura pra preencher a cabeça!

Andei lendo uma série de livros, como principais 2012, a biografia do obama e os sete hábitos das pessoas mais eficientes.
Neste último ano, me confrontei com uma política interna de me exigir muito. Correr atrás ao máximo, sacrificar minha vida pessoal. Tudo começa lá nos EUA.


Em dezembro do ano passado, embarquei para uma aventura em South Lake Tahoe, California, EUA. Minha primeira experiência no exterior de intercâmbio e um emprego nada animador: Tent Coordinator. Parece bonito? É, só parece. Passava o dia cuidando do equipamento de Ski de crianças de 7 a 12 anos, chamados explorers! Foi uma bela lição de vida sobre subordinação, e aprendendo uma diferente cultura profissional e pessoas extremamente diferentes. E peguei uma das piores temporadas para ganhar dinheiro. E obviamente, passei um aperto. Mas nunca desanimei, pois via amigos ao meu lado sendo demitidos e em situação muito pior.
Então comecei a economizar, e a aprender a ser resiliente. Todos os dias, eu buscava comer o almoço que sobrava das crianças que trabalhava. Era normal, os instrutores tinham este direito, e se todos comessem, eu podia comer!
E começaram os problemas. Tinham instrutores que não me deixavam comer, que me zoavam, tinha chefes que me criticavam e que preferiam jogar a comida fora a vê-la no meu prato. Não que eu não tivesse condições de comprar minha comida, mas já havia exigido tanto esforço dos meus pais que não queria contar com mais nenhum centavo deles. Foi aí que aprendi: se eu não trabalhar por mim mesmo, ninguém vai trabalhar por mim. E voltei para o Brasil com este sentimento.
Voltei assumindo uma liderança na AIESEC, que nunca tinha vivido anteriormente; conseguindo um estágio e com minha faculdade. E lá estava eu vivendo. Passava o dia todo longe de casa, estudando ou trabalhando, e me dedicava plenamente ao meu trabalho. E sendo que eu já não sou um exímio gestor de tempo, duas semanas depois de voltar recebo uma mensagem no celular de minha mãe: meu filho, você já voltou dos EUA?
Aquilo realmente mexeu comigo. Passei a dedicar todos os dias pra pelo menos almoçar com minha família. E mal sabia eu o quanto isso iria mudar minha vida.
Pra ser sincero, meus pais nunca aprovaram meu trabalho voluntário. Eu era muito desesperado, e não sabia lidar com os problemas. E gastava muito tempo para fazer muito menos do que faço hoje. E esta sempre foi minha grande luta dentro de casa: fazer com que aceitassem este trabalho e me apoiassem.
No dia 13 de maio de 2009, logo após a CONADE, conferência da AIESEC, fui almoçar em minha casa. Era uma quarta-feira. Meu pai não havia chegado do trabalho ainda. Foi quando eu escutei a porta abrindo. Eu sabia que era ele, pelos passos cansados e já não tão vigorosos quanto antes. Foi então que algo cresceu no meu coração. Eu senti uma vontade imensa de dar um abraço no meu velho. Me levantei, falei com o pessoal que estava na mesa: eu vou receber meu pai como ele deve. E dei um forte abraço, perguntei como havia sido seu dia, como ele estava passando. Ele sorriu, cansado, e sentou à mesa. Foi então que comecei a falar da conferência, de tudo que estava aprendendo, do que estava projetando pro meu futuro. E vi os olhos dele brilharem. O homem que sempre quis um diplomata, me aprovou. Eu fui guardar a sobremesa e olhei de soslaio para a mesa e o vi comentar com minha mãe:"e não é que este negócio dá futuro?". Fui embora realizado, e lhe dei um abraço, voltei para a faculdade.
No dia seguinte acordei, ele já tinha saído para um de seus trabalhos voluntários: cuidar da fundação espírita joão de freitas, onde ele atuava cuidando dos idosos da instituição. Fui ao trabalho, tive um dos melhores dias (assinei três contratos), e voltei para casa a noite. Tal foi minha surpresa com minha mãe correndo para o carro dizendo que meu pai estava passando mal. Não hesitei, corri, entramos em alta velocidade e fomos ao hospital. Já não tinha mais jeito. Como se toma o doce de uma criança, a referência de homem na minha vida se foi.
E não tinha reação. Quando escutei o médico, eu só pensei em abraçar minha mãe e no que eu falaria para meu irmão quando voltasse pra casa. E foi o momento mais difícil da minha vida: sentar no sofá ao lado do meu irmão pra explicar o que havia acontecido com o pai dele. E naquele momento, vieram na minha cabeça o meu comportamento nos últimos tempos e como eu queria levar minha vida dali em diante. Eu também era pai agora, eu tinha uma mulher pra apoiar, e tinha uma família. E tudo aquilo que aprendi me pareceu tão útil agora, porque eu tinha que garantir que ia trabalhar para meu futuro. E ao mesmo tempo, tinha que viver!
E foi o ano mais desafiante da minha vida. Grandes resultados no trabalho, grandes desafios familiares, grande crescimento. E isso me dá forças pra acreditar que é possível, sim, trabalhar e ter uma vida pessoal equilibrada.
A lição que ficou para mim de 2009? Se este ano não me derrubou, eu não vou desistir nunca mais. E que me carimbem de sonhador, romântico, porque é isso que me dá forças pra levantar a cada dia da minha vida.
E sou confrontado com duas espécies de experiências: um livro que comprei no sebo diz: "Como ganhar tempo - otimizando a sua vida". Um explicativo sobre como tornar sua vida mais rápida e perder menos tempo com coisas menos importantes. Deixei ali na minha estante, já ia começar a ler. E na antiga cômoda do meu pai, encontro um livrinho interessante. "Perca tempo: a vida acontece nas pequenas coisas". Eu olho para o meu livro, recém-comprado no sebo, e não tenho dúvidas: fica para a próxima!
E passo uma semana na praia conversando com minha família, vou ao rio e escuto as histórias da amigas da minha mãe, que já viveram tanto, vejo os fogos do ano novo... e fica em mim a certeza. O ano passou, eu fui a vários lugares, aprendi muita coisa, mas quando eu paro pra refletir eu percebo a minha metáfora.


Randy pausch diz que na vida, tudo se aprende por head fakes. A aula de matemática, por exemplo, não quer te ensinar a simples ação de somar ou multiplicar. Quer na verdade instigá-lo a uma conexão lógica de processos e operações que estimule o seu cérebro.
A minha headfake é cada vez que eu saio de casa. Não é simplesmente o momento da minha viagem. Não é o congresso que eu busco. Não é o momento em que viajei com meu pai pela última vez. Mas sim o que eu trago de volta pra minha casa, o que fica comigo. A minha bagagem.
É a minha maneira de relacionar minhas experiências com minha essência.
E ter a certeza de que cada uma destas viagens no seu tempo criou o Léo que escreve aqui hoje!
E eu to voltando pra casa, outra vez!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Princípios x tendências


Férias é realmente um tempo de ócio que nos permite refletir e perceber algumas coisas ao redor.
Andei revendo alguns de meus filmes prediletos, que acabaram se juntando numa cadeia de conclusões que se junta ao livro que estou lendo no momento, "Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes", de Stephen R. Covey.
Em "De volta para o futuro" (aquele mesmo da trilogia, robert zemeckis, spielberg), passei de 1855 a 2015 em oito horas da série. E me fizeram perceber algumas mudanças que passaram pelos nossos olhos sem perceber.
A vida sem computador. A vida sem walkman. A vida sem discman. A vida sem internet. A vida sem o modem da internet 3G (haha, esta é nova).
E isso tudo me fez perceber que na maioria das vezes avaliamos o mundo de uma ótica cultural. A partir das tendências. E não a partir dos princípios.
O que raios isso quer dizer?
Quando pensamos em relações interpessoais, pensamos em como as pessoas se relacionam conosco. Sempre há algum ponto em comum: na escola, o primeiro ponto comum são os desenhos e interesses da criança; na faculdade, o objetivo de seguir carreiras semelhantes; nas amizades de infância, relações entre pais e proximidade de moradia; todas as relações interpessoais se conectam por conveniência. O que vem mudando hoje em dia? A possibilidade de você se conectar numa rede de web que propicia pessoas que você nunca viu, mas que se conectam por uma comunidade do orkut ou twitter. Uma relação virtual, mas que pode ao mesmo tempo ser sincera e próxima. Uma relação de afinidade.
Aonde quero chegar com isso? Isso tudo provém de uma tendência. O real objetivo das relações interpessoais é, numa vida essencialmente em sociedade, ter a habilidade de perceber as diferenças entre as pessoas e conectá-las não a objetivos individuais. Mas sim aos coletivos. E se emocionar com cada um dos objetivos alcançados que impactem no mesmo objetivo coletivo. Por isso, deveria ser nossa felicidade a cada vez que algum vizinho consegue um emprego, ou que alguém participe de um projeto social, que alguém busque melhorar a sociedade em que vivemos.
Por isso, eu acredito na sociedade fraterna, baseada não nos interesses individuais, mas sim nos coletivos, pois ninguém consegue ser bem sucedido na vida sozinho: tudo é feito através de relações. E me impressionou este pensamento, eu liguei a TV pra ver o jogo do zico e do romário, virando os canais, lá estava o gancho que eu precisava pra ter inspiração para escrever.
O novo clipe de Britney Spears, entitulado "3", uma incitação clara a uma relação sexual a três, ou quatro, enfim, uma "festinha" com batida dance. Longe de mim julgar, ou achar bom ou ruim. Mas sim, num tempo em que discutimos COP-15, sustentabilidade, futuros líderes, a nossa tendência cultural apontar para uma sociedade que se baseia em dinheiro, sexo, luxúria, e mostrar que o bem sucedido é aquele que mais tem a possibilidade de viver estes sentimentos. Ontem, na boate aqui em cabo frio, a mesma coisa: os hits são "love, sex and magic" e "sexy bitch". Realmente inspirador.
Obviamente, não vou julgar ou achar isso um absurdo, é muito moralista pro meu gosto, até porque eu gosto de várias músicas. O que eu pretendo por essas linhas é incitar que preparemos nossas tendências culturais não somente como uma maneira de se libertar sábado a noite, mas que também nos incitem a discutir o que realmente vai influenciar nosso futuro.
A solução? Eu não tenho. Mas espero que ao ler este texto, você também se incomode. E que possamos criar o futuro coletivamente. Porque há décadas, convivemos com as tendências, e devemos aprender a usá-las a favor.
Porque o único elemento permanente de nossas vidas é a mudança. E quando elas vierem, é importante que tenhamos nossos valores e princípios claros.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Dona néia??

Cheguei hoje pela madrugada a Cabo Frio. Já tinha um bom tempo que não vinha, não por não querer, ou achar ruim, dado que este é o local que mais me lembra minha infância. Desde o bueiro em que eu quebrei o braço no pátio do condomínio até a primeira queimadura de água viva, é como se este lugar me levasse às origens a cada minuto. E este ar não mudou. O que me impressionou foi outra coisa.
Ao chegar na rodoviária, às sete e meia da manhã, já dava pra notar as diferenças. Pra começar, o taxista me aliciando, querendo que eu pagasse a mais e o taxímetro rodando rápido demais. Nada que não esteja acostumado, mas foram raras as ocasiões em que isso aconteceu aqui. Ou seria eu tão inocente assim?
Cheguei ao meu destino, e nova surpresa: o antigo condomínio residencial simples, em que eu fico desde que me entendo por gente, já não era como antes. As gradinhas verdes foram substituídas por um grande portão negro duplamente reforçado. O banco em que eu sentava e fica proseando deu lugar a duas cadeiras destinadas aos porteiros, que por sinal nunca existiram por aqui. E um grande cartaz indicava: "É proibido jogar bola no pátio". Todos meus 18 anos que passei naquele pátio não seriam nada sem uma bola e meninos irracionais a jogar. E isso porque nem me lembro da dor quando quebrei o braço, só lembro que eu estava brincando de carrinho de mão.
E a surpresa: um interfone no portão. Toquei, apareceu um cidadão que nunca vi, e perguntou aonde eu ia. Eu falei:
- Vou ali no apartamento da dona Elaine, ela é minha mãe e está com meu irmão Tomás aí.
- Qual o número do apartamento?
A pergunta me surpreendeu, porque num condomínio com dez apartamentos, sempre foi esperado que todos os habitantes se conheçam, dado que todos vem ao mesmo lugar tem uns 20 anos. Eu cresci vendo estas pessoas.
- Desculpa, amigo, esqueci de perguntar no telefone. Você os conhece?
- Sem número de apartamento fica difícil.
E lá fui eu, me encaminhando para o orelhão, liguei mas ninguém atendeu. Ora bolas, é férias, é praia, eu também não atenderia. Voltei ao portão e me dirigi ao cidadão novamente:
- Amigo, eu não consegui falar com eles. São sete e meia da manhã, no mínimo estão dormindo.
- Você é filho de quem?
- Dona Elaine, meu amigo.
- Ok, vou verificar aqui.
E tirou uma caixa de fichas com os hóspedes. Me impressionou porque o rapaz não fez aquilo antes, mas vai saber, não custava nada, dado que neste momento cumprimentei um amigo meu que sempre passa férias aqui e conversávamos quando veio o grito:
- Dona néia?
- Amigo, é dona Elaine.
- Eliane matos?
- Elaine amigo.
- Não tem nenhuma néia aqui.
- É ELAINE - falou meu amigo, com muito menos paciência que eu.
- Elaine, Tomás, e Leandro?
- Leonardo, amigo, leonardo.
- Ok, pode entrar.
Depois de quase vinte minutos, consegui entrar no condomínio. E ali estava eu: pátio vazio, ninguém jogando bola, e todo mundo aqui em casa dormindo.
O que fica de impressão pra mim é que tudo aquilo que eu vivi não existe mais. Passar o tempo quebrando meu braço ali no pátio, sentado no antigo banquinho jogando poker, chamando os amigos pra entrar, tá tudo lá atrás. Entendo os motivos, pela segurança, pelo bem estar da sociedade, mas senti que um reduto da minha infância foi tirado de mim. Que todos nós somos reféns do bem da sociedade, pelo futuro. Mas espero que um dia a gente possa mudar isso. Até lá, vou lembrar sempre do meu pai falando que não mudava lá de casa pra não ter porteiro. Fica a mensagem pra todos um feliz natal, e que possamos nos lembrar daquilo que nos torna uma sociedade: a possibilidade de convívio e troca de experiências plena em um ambiente comum, ou a necessidade de se proteger em conjunto usando alguém pra esconder a dona néia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Só enquanto eu respirar!

9 de novembro de 2009
Há certos momentos que fazem você se tornar uma pessoa diferente. Você pode não perceber na hora, mas depois de um tempo de digestão isso se torna evidente.
No último mês, enquanto viajava, eu tomei uma decisão: Iria conhecer o escritório da AIESEC Internacional. Era algo conveniente, já que estaria por ali perto, mas simbólico. Simbólico porque pode não significar muito pras pessoas em geral, mas extremamente interessante pra minha motivação individual como líder, envolto numa série de perguntas pós eleição que me tiravam o sono.
Quais são seus pontos fortes? Quais são seus pontos a melhorar? Quais é sua motivação para o próximo ano? Qual a sua importância para o time? Uma série de idéias, juntas a um tempo complicado na faculdade e alguns meses sem férias tinham me esgotado.
Foi quando eu tomei a decisão de ir a Rotterdam. Comecei o meu final de semana na casa de Cye, um antigo trainee da @JF. Uma família com um ótimo clima, uma cidade bem "holandesa" como num caricato de filme. Ruelas, bicicletas, bom clima. Saí a noite, tomei as bebidas holandesas típicas, fui a show de salsa, bati uma pelada, tomei meu Hagen Dazs e fui a um pub. Foi quando na internet, fui conectado a Frank, AI VP ER, que foi até o pub em que eu estava. Me impressionou a prestreza dele, em pleno domingo, oito horas da noite, sair para encontrar um maluco brasileiro em rotterdam que nunca havia conversado com ele direito. Mas o papo fluiu normalmente: como se nós já se conhecessemos, objetivos em comum, histórias diferentes, mas a mesma língua. E combinei de no dia seguinte ir até o escritório da AIESEC Internacional.
Cruzando as ruas de Rotterdam, entre fábricas da Unilever, o porto, ING, eu me sentia uma criança procurando o presente no natal.
Subi as escadas, fui recebido pelo Frank no escritório e entrei. Nada demais, mas me chamou a atenção como cada um deles me tratou. Chamar pelo nome, abraçar, conversar por alguns momentos, me incentivar. E daí saiu este vídeo abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=xPyK2hj_A3c



Saí de lá renovado. Sem o gabarito pras perguntas que eu tinha, mas com uma certeza: vou me esforçar ao máximo para garantir um bom trabalho. Porque um dia, eu quero mover as pessoas como fui movido. Porque eu quero ver cada uma das vidas que eu afeto sendo mais felizes. Eu quero chorar quando errar, mas ter a certeza de que aquilo não vai mais acontecer. E me tornar um entusiasta da vida. Alguém, que como eles, trabalhe para que as pessoas lutem para ser algo melhor.
Com toda a motivação do mundo, mesmo depois de um mês, amanhã começa a CONAL. E a sensação de que esses sonhos que tenho estão mais perto da realidade.
Post demorou a dar upload, mas ainda vale! Depois posto sobre CONAL!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Epílogo

São vinte e duas horas e trinta e dois minutos. Eu chego no aeroporto de Schippol, Amsterdã, preparado pra dormir mais uma noite. Dormir não, encostar na poltrona mais próxima, me enrolar no casaco e tomar conta da minha mochila. É minha viagem de volta da realização de um sonho de criança.
Eu me lembro como se fosse ontem. Meu pai me pegou pela mão, me levou pro aeroporto aqui de Juiz de Fora. Foi só um voo. Eu sobrevoei a cidade ( o que qualquer um que conheça sabe que não dura muito tempo). Mas eu lembro perfeitamente do meu pai olhando pra mim e dizendo: "Meu filho, que este seja o primeiro de muitas realizações dos seus sonhos."
E desde então, a minha vida foi se pautando em sonho a sonho. É isso que me mantém vivo quando eu estou achando que nada vai dar certo. É muito ideológico, muito distante, muita gente me diz. Mas pra mim faz todo o sentido, porque se eu morresse hoje, eu iria feliz de ter lutado por cada um dos meus objetivos.
- Sir, apparently you don't have a reservation. Report to the desk.
Sim, as quatro da matina da minha ida de volta, meu eticket acusa. Lá vou eu pro balcão, brigar de novo. Dura longos vinte minutos, mas eu sou muito bem encaixado no meio de dois senhores um tanto quanto corpulentos como eu. Bem ali, na rabeira do avião.
Aí lá vou eu, de novo de mãos dadas com meu pai, agora pro sítio. Ele olha pra cada uma das plantas e me ensina a plantar minha própria muda. Me explica cada uma das propriedades das plantas, como regar. Não a toa, isso me ensinou em todas as minhas viagens a trazer sementes que possam brotar no país. E, acreditem, eu realmente aprendi alguma coisa com isso. Não adianta regar lindões botões de flores, que não vão florescer num clima tropical se você não tiver o máximo cuidado na hora de escolher o que você quer levar. Nem sempre o que você quer é o que vai florescer no seu jardim, meu filho.
- Sir, apparently i don't have a seat.
Sim, eu não tenho um assento. Estou olhando para o número assinalado na minha passagem, e só está na minha frente uma armação de ferro sem lugar para colocar minha bunda.
- Ok, monsieur, just a minute!
Os brasileiros ao redor fazem piadas nos próximos vinte minutos, que atrasam também a decolagem do avião por causa do assento.
E lá estou eu pensando novamente na primeira vez que fui escolher meu futuro curso. Eu cheguei para os meus pais com a seguinte decisão:
- Eu quero filosofia, sociologia ou psicologia. Tem mais a ver comigo.
E mais uma vez, no momento em que eu parei de falar, meu pai retrucou:
- Tudo bem, meu filho. Não tenha medo de escolher sua profissão, desde que você garanta que vai ser feliz naquilo que faz e um cidadão de bem.
Eu fiz uma escolha diferente do que eu pensava, mas sempre contei com apoio total da minha família. E isso fez uma grande diferença pra mim: eu escolhi trilhar este caminho. Eu me sinto muito mais disposto hoje a lutar, porque a luta agora é minha, e é pro resto da vida!
- Eu preciso sair, não aguento voar.
Sim, a mulher do meu lado tem pânico de voar. Eu preciso levantar a cada dez min, o que inviabiliza qualquer tentativa de dormir. Agora já são mais de 30 horas sem sono decente. E estou tossindo como um cão, devido a diferença de temperatura e umidade do ar.
Minha cabeça se volta pra primeira vez em que fui a um jogo do vasco. Curiosamente, era a taça libertadores, a final. Eu estava mt doente, mas bati meu pé e resolvi ir. E lembro do meu pai, com aquele semblante de médico, do meu lado, tomando cerveja na cabeça encostado no alambrado. Preocupado, mas foi o primeiro a me por nos ombros quando o meu time venceu.
- O próximo onibus sai em dez minutos, na terceira plataforma a esquerda no corredor direito. Se guie pelas luzes de segurança.
Sim, a rodoviária está as escuras pelo apagão. E tenho dez minutos pra correr pelo tumulto para finalmente repousar em minha casa. O caos reina, os policias não sabem o que fazer, um turbilhão de pessoas não consegue comprar passagens pois o sistema está fora do ar.
Mas eu consegui finalmente chegar na minha casa. às duas da manhã, eu consigo pela primeira vez em 53 horas colocar minha cabeça no travesseiro e dormir. Mas impressionantemente, eu não consigo.
Só consigo pensar que realizei meu sonho de infância. E não era conhecer lugar nenhum. Não era viajar. Nem comprar mais uma planta. Nem desafiar minha saúde.
Minhas lembranças só remetem ao maior professor que eu tive na minha vida. E por isso eu criei minha própria head fake, já diria randy pausch. O tempo que eu gastei lembrando e escrevendo sobre isso não é pra mim. É sim uma homenagem. A viagem não é pra mim. Mas sim pra você, pai.
E lá se vão seis meses.